Queda de barreira antidumping pode aumentar pressão sobre fabricantes

Diário Comercio Indústria & Serviços, 18/03/2015

São Paulo – As fabricantes nacionais de calçados querem manter a barreira antidumping, que sobretaxa as importações de calçados chineses já que, sem a medida, a pressão sobre os preços deve aumentar.

apice_queda_de_barreira_antidumpingO valor dos calçados chineses, muito inferior ao produzido no Brasil, é o principal problema das fabricantes locais, que não conseguem competir com o baixo custo de produção naquele país.

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, a queda da barreira combinada a outros fatores pode levar a uma retração da produção. “As mudanças em relação à desoneração da folha de pagamentos e a diminuição do Reintegra pioram a competitividade do setor”, conta ele.

Klein explica que até 24 de dezembro a barreira segue em vigor e, nesse período, o governo deve avaliar se mantém a sobretaxa para os importados da China. A medida, que entrou em vigor em 2009, criou uma sobretaxa de US$ 13,85 por par importado.

“Em 2015, a previsão é que os artigos importados alcancem participação de 4,2% sobre o consumo aparente em volume de pares”, comenta o diretor do Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi), Marcelo Prado, em estudo sobre o setor.

Prado avalia que a China responde por 57% da produção mundial de calçados e 72% das exportações em volumes de pares no mercado global.

Esportivos

Mas as gigantes do segmento de calçados esportivos, como Nike, Adidas, Puma e Alpargatas, representadas pela Associação pela Indústria e Comércio Esportivo (Ápice), defendem a queda da medida antidumping. “Essa sobretaxa existe há cinco anos e nesse período o fabricante tinha que ter investido em tecnologia”, destaca a diretora presidente da Apice, Marina Carvalho.

Ela avalia que a barreira comercial aos chineses é de curto prazo e não incrementa produtividade, mas ressalta que as empresas associadas à entidade tem conseguido avançar em ganho de competitividade.

A Alpargatas, que produz Rainha, Muzuno e Topper, implantou em dezembro um programa para otimizar sua linha de produção, reduzir custos e de revisão do modelo logístico para aumentar a produtividade. Conforme balanço anual, as vendas de calçados esportivos da empresa em 2014 caíram 6,8% sobre um ano antes, para 10,3 milhões de pares.

A desaceleração do mercado interno, que responde por quase 80% das vendas da Vulcabras, dona das marcas Olympikus e Reebok, também impactou as vendas. A receita líquida da companhia cedeu 4,5%, para R$ 1,267 bilhão. A Vulcabras não divulga dados específicos de venda no segmento de calçados esportivos.

Para a marca italiana Diadora, que voltou ao País no ano passado com produtos fabricados pela brasileira Dilly Sports, a queda da barreira antidumping não deve mudar muito o cenário para as marcas globais. “Depois que a medida entrou em vigor, as marcas continuaram importando, só que de outros países asiáticos”, conta o gestor de marketing e vendas da Diadora, Milton de Souza.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), compilados pela Abicalçados, indicam que nos dois primeiros meses de 2015, o Vietnã aparece como líder na lista de países exportadores de calçados para o Brasil, com US$ 53 milhões, recuou de 28,8% frente a igual período do ano passado, seguido pela Indonésia com US$ 22,96 milhões, alta de 4,6% e China com US$ 11 milhões, com queda de 4,3%.

Câmbio

O executivo da Diadora afirma que, apesar do cenário econômico mais difícil, a empresa espera vender 600 mil pares de calçados este ano, um pouco acima do ano passado, quando a fabricante vendeu 450 mil pares em 10 meses de operação no País.

“Nosso maior problema é a alta no custo com matéria prima importada, afetado pelo câmbio”, relata Souza. Ele conta que o tíquete médio de venda está menor e os varejistas não têm conseguido repassar a alta nos preços para o consumidor. “Todo mundo está em compasso de espera para ver o que acontece este ano”, diz ele.

Procuradas, as empresas associadas à Apice não quiseram comentar o assunto.

Fonte: DCI